Registrato e BC Protege+: os dois serviços gratuitos do Banco Central que todo cidadão precisa conhecer
O que está registrado no seu CPF neste momento — e como blindar a abertura de novas contas fraudulentas.
O que está registrado no seu CPF neste momento — e como blindar a abertura de novas contas fraudulentas.
Poucos cidadãos conseguem responder, com segurança, quantas contas bancárias, chaves Pix, operações de crédito e operações de câmbio estão vinculadas ao seu CPF. A boa notícia é que essa informação existe — está consolidada nos bancos de dados mantidos pelo Banco Central do Brasil e, desde a última década, tornou-se acessível de forma gratuita ao cidadão, por meio de dois serviços que merecem ser incorporados à rotina de higiene financeira: o Registrato e o BC Protege+.
Este artigo explica o que cada um faz, como acessá-los, em que situações são aplicáveis e quais providências jurídicas cabem quando o cidadão identifica registros que não reconhece.
O Registrato é a plataforma digital oficial do Banco Central por meio da qual pessoas físicas e jurídicas obtêm relatórios consolidados sobre seu relacionamento com o Sistema Financeiro Nacional. O acesso é feito pela área logada do Meu BC e exige conta gov.br nível prata ou ouro, com verificação em duas etapas habilitada. O uso é inteiramente gratuito e não deixa qualquer marca ou registro negativo na situação cadastral do consultante.
A plataforma agrega dados oriundos de diferentes sistemas regulatórios — com destaque para o Sistema de Informações de Crédito (SCR) e o Cadastro de Clientes do Sistema Financeiro Nacional (CCS) — e os disponibiliza ao titular em cinco relatórios principais.
O Relatório de Empréstimos e Financiamentos (SCR) apresenta o histórico completo das operações de crédito em nome do consultante: valores contratados, saldos devedores, classificação de risco na escala AA a H, informações sobre garantias prestadas e eventual situação de adimplência ou inadimplência. É instrumento indispensável para quem pretende renegociar dívidas, contestar operações não reconhecidas ou planejar uma eventual repactuação com as instituições credoras.
O Relatório de Contas e Relacionamentos (CCS) reúne todas as contas bancárias mantidas em instituições financeiras no Brasil, com identificação de cada banco, datas de abertura e encerramento e os tipos de conta. É por meio dele que o cidadão pode descobrir a existência de contas inativas que esqueceu de encerrar — ou, pior, contas abertas fraudulentamente em seu nome.
O Relatório de Chaves Pix possui duas versões. A versão simplificada traz, em tempo real, as chaves ativas, bloqueadas judicialmente, em portabilidade ou em reivindicação de posse, inclusive com a hora exata em que foram criadas. A versão completa, disponibilizada em até dois dias úteis, acrescenta o histórico de chaves já excluídas, com as respectivas datas de exclusão. Trata-se de ferramenta particularmente valiosa para identificar se terceiros cadastraram chaves Pix indevidamente em seu CPF.
O Relatório de Câmbio lista compras e vendas de moeda estrangeira e transferências internacionais realizadas no CPF do consultante. Serve tanto para fins de controle pessoal quanto para atender a questionamentos administrativos ou fiscais.
O Relatório de Cheques sem Fundos (CCF), por fim, informa eventual inclusão no Cadastro de Emitentes de Cheques sem Fundos, ainda relevante para quem transita com esse instrumento de pagamento.
Enquanto o Registrato oferece a fotografia do passado e do presente, o BC Protege+ atua sobre o futuro. Trata-se de serviço lançado pelo Banco Central ao final de 2025, dentro de um pacote de medidas destinadas a combater a abertura fraudulenta de contas bancárias com uso de identidade falsa ou de pessoas utilizadas como "laranjas".
Por meio do BC Protege+, o cidadão ou empresa informa ao conjunto do Sistema Financeiro Nacional que não tem interesse em abrir novas contas naquele momento, nem autoriza a inclusão de seu CPF ou CNPJ como titular ou representante em contas de terceiros. A partir da ativação, bancos tradicionais e digitais, cooperativas e instituições de pagamento passam a bloquear automaticamente:
Um ponto fundamental — e que costuma gerar dúvidas — é o seguinte: o BC Protege+ não interfere nas contas já existentes. Pix, TED, DOC, saques, pagamentos e a utilização das chaves Pix cadastradas nas contas atuais seguem funcionando normalmente. A proteção opera exclusivamente sobre a abertura de novos relacionamentos.
O serviço é gratuito, reversível e pode ser desativado a qualquer tempo pelo próprio titular. Quem decide, por exemplo, abrir uma nova conta em um banco digital precisa apenas desativar temporariamente a proteção, concluir a abertura e reativá-la em seguida. O acesso, assim como no Registrato, exige conta gov.br prata ou ouro com verificação em duas etapas, e também é feito pela área logada do Meu BC.
Registrato e BC Protege+ integram a mesma estratégia de cidadania financeira digital promovida pelo Banco Central, e funcionam melhor quando utilizados em sequência.
O ciclo recomendado é simples: primeiro o cidadão emite seus relatórios do Registrato para diagnosticar — ou seja, descobrir exatamente quais contas, chaves Pix, operações de crédito e operações de câmbio estão registradas em seu CPF. Identificados os registros, cancelam-se as contas inativas, impugnam-se as operações não reconhecidas e promove-se a regularização dos débitos legítimos. Concluída essa limpeza, ativa-se o BC Protege+ para blindar o CPF contra a abertura futura de novas contas fraudulentas.
O conjunto oferece ao cidadão um controle inédito sobre sua identidade financeira — até há poucos anos, reservado apenas a grandes corporações com áreas de compliance estruturadas.
A descoberta, no Registrato, de contas ou operações de crédito que o titular não reconhece é cenário mais comum do que se imagina. Nessas hipóteses, algumas providências devem ser adotadas de forma imediata e documentada.
A primeira é preservar a prova: emita e guarde o PDF do relatório em que o registro aparece. Esse documento é o principal elemento de prova em eventual demanda futura. Em seguida, notifique formalmente a instituição financeira — preferencialmente por canal escrito (e-mail cadastrado, SAC 2ª instância ou plataforma consumidor.gov.br) — requerendo o cancelamento da conta ou da operação e o envio de documentos que demonstrem a regularidade da abertura. Se a instituição não resolver administrativamente, o passo seguinte é o registro de reclamação junto ao Banco Central e, em paralelo, a notícia-crime na Polícia Civil, especialmente em casos de abertura fraudulenta.
Na esfera cível, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça é consolidada no sentido de que a abertura de contas e a concessão de crédito mediante fraude de terceiro caracterizam fortuito interno, integrante do risco da atividade bancária, ensejando a responsabilização objetiva da instituição (Súmula 479 do STJ) e a condenação em danos morais in re ipsa. O titular lesado pode, portanto, buscar a declaração judicial de inexistência do débito, o cancelamento de eventuais negativações, a restituição dos valores indevidamente cobrados — em dobro, quando cabível — e a indenização pelo abalo moral suportado.
O reconhecimento do Registrato e do BC Protege+ como direitos do cidadão dialoga diretamente com o regime da Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018), que assegura ao titular o direito de acesso aos seus dados pessoais tratados e de oposição ao tratamento realizado com fundamento em interesse legítimo. As ferramentas operacionalizam, na prática, esse direito de autodeterminação informativa no campo específico das relações com o Sistema Financeiro Nacional.
A recomendação prática é simples: reserve um momento do ano — ou, idealmente, de cada semestre — para emitir os relatórios do Registrato, revisar o que consta no seu CPF e manter o BC Protege+ ativado, desativando-o apenas em períodos específicos em que houver intenção de abrir contas novas.
O Registrato e o BC Protege+ transformam, em dois cliques, o que antes dependia de pedidos administrativos formais, deslocamentos e esperas. Compreendê-los e utilizá-los é hoje parte do mínimo existencial em matéria de cidadania financeira. Em um cenário em que fraudes de identidade, contas de laranja e golpes via Pix seguem entre as modalidades mais recorrentes de crime patrimonial no país, conhecer o que está registrado no próprio CPF e impedir a abertura de novas contas sem autorização deixaram de ser cautela — passaram a ser obrigação de diligência razoável do cidadão.
Caso identifique, em sua consulta, registros que não reconhece, ou caso pretenda discutir judicialmente danos decorrentes de abertura fraudulenta de conta, contratação indevida de crédito ou cadastro irregular de chave Pix, a assessoria jurídica especializada é o caminho adequado para que o direito, por si só reconhecido na lei, seja efetivamente reparado no caso concreto.
Nossa equipe atua em defesa de consumidores vítimas de abertura fraudulenta de conta, contratação indevida de crédito e cadastro irregular de chave Pix, incluindo ações judiciais por danos morais e materiais contra instituições financeiras.
Este artigo tem caráter meramente informativo e não substitui a análise jurídica individualizada de cada caso.